Protocolos especiais abrem a temporada de pesca sustentável do pirarucu na Amazônia

Coletivo do Pirarucu elaborou protocolo de pesca com cuidados preventivos contra a Covid-19 - Por Renata Monti - 08.09.2020

Pesca em Jarauá. Foto: Aline Fidelix

Pesca em Jarauá, na Amazônia | Foto Aline Fidelix 

O período pré-pesca sustentável do pirarucu exige planejamento das comunidades indígenas e ribeirinhas do estado do Amazonas. Com 22 anos de atividade, a temporada 2020 será atípica, devido aos cuidados preventivos contra a Covid-19. Com o objetivo de estabelecer critérios para cada etapa, o Instituto Mamirauá, em parceria com os demais membros de instituições de apoio e assessoria técnica em cada região, lançou uma Nota Técnica para o IBAMA, das etapas de contagem até a avaliação.

“Em um cenário de pandemia, todos estão conscientes de que precisam adotar o máximo de cuidados e nossas 13 áreas confirmaram que farão a pesca. Todos entendem e sabem da importância econômica, ambiental e social do manejo sustentável do pirarucu. Os grupos propuseram medidas mais restritivas e vão adotar o máximo de cuidados”, explica Ana Cláudia Torres, do Instituto Mamirauá.

A preocupação com a segurança dos manejadores e do pescado originou no Coletivo do Pirarucu o protocolo de pesca, que prevê testes para 100% das pessoas envolvidas na atividade coletiva de pesca, assim como as tripulações das embarcações destinadas a receberem a produção nas comunidades e o acompanhamento de profissionais de saúde, entre outras medidas.

Ana Cláudia

À direita, Ana Cláudia Torres, do Instituto Mamirauá, ao lado da chef Ana Pedrosa | Foto Marizilda Cruppe

“Temos construído com especialistas os procedimentos de pesca, na tentativa de evitar a possível contaminação das pessoas pelo Covid-19, mas também do pescado. Esse protocolo vai orientar o comportamento dos manejadores e demais envolvidos durante a pesca. É certo que haverá testes para 100% das pessoas que irão se juntar nessa atividade. Haverá monitoramento de uma equipe da Secretaria de Saúde, com um barco que dará toda a assistência necessária e irá orientar sobre o protocolo”, esclarece Adevaldo Dias, presidente do Memorial Chico Mendes.

Como explica Gustavo Silveira, da OPAN, todas as instituições de apoio técnico aos manejadores estão se empenhando pela segurança no período de pesca.

“Temos a responsabilidade e compromisso de contribuir para que a pesca ocorra de maneira mais segura possível. Sabemos da importância da atividade para os manejadores e dedicaremos esforços para que isso  ocorra. Por outro lado, a questão da pandemia é algo completamente novo e será um grande desafio a realização da pesca”, pontua Gustavo.

Etapas da pré-pesca

Em geral, o período pré-pesca consiste na vigilância dos corpos hídricos (como rios e lagos), além de reuniões de esclarecimento. Nos meses de Julho a Setembro, as comunidades iniciam a contagem dos peixes, que servirá de base para o cálculo da cota do ano que vem a ser autorizada pelo IBAMA. Contudo, como explica Ana Cláudia, este ano essas fases iniciais foram facultativas, visto que muitas comunidades estavam em isolamento devido a pandemia. 

Manejo Amana

Manejo de pirarucu Amanã, Amazonas

“Muitas etapas deixaram de ocorrer ou pelo menos não ocorreram como costumeiramente. Não queríamos deixar como fases obrigatórias, ficando a critério de cada grupo. A Nota Técnica prevê que se não realizarem a contagem, por exemplo, não perdem a cota de pesca para o próximo ano”, esclarece Ana Cláudia.

Como destaca Adevaldo, o período de contagem não acontece ao mesmo tempo em todas as regiões, pois depende de uma série de fatores, como o nível de água e a visibilidade dos lagos, por exemplo.

“É preciso o nível da água baixar para que os peixes estejam mais concentrados e sejam vistos. Essa atividade é feita por pessoas certificadas, que passam por treinamento, e fazem a contagem sequenciada, em um único dia no mesmo ambiente. Há muita variação do número de peixes, há ambientes com 10 enquanto outros com mil, por isso o trabalho pode levar semanas, visto que são centenas de ambientes por área de manejo”, explica Adevaldo.

Pesca

A temporada de pesca tem início na primeira quinzena de setembro, mas varia de acordo com a região. Para essa fase, são necessárias reuniões de planejamento, com mudanças no formato dos encontros. “Sugerimos que façam reuniões com grupos reduzidos, indicando as coordenações por etapa de trabalho, como coordenação de contagem, de pesca, de comercialização”, esclarece Ana Cláudia.

Manejo Bernardo Oliveira

Manejo de pirarucu selvagem | Foto Bernardo Oliveira

“Essa é a etapa que mais nos preocupa. Por isso, vamos exigir que as tripulações sejam testadas. Já estamos em contato com os compradores explicando que essa será uma exigência. O objetivo é ter êxito do início ao fim do trabalho”, diz Ana Cláudia.

 

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Pelo histórico de organização social das populações ribeirinhas do Médio Juruá, a ASPROC é referência na Amazônia brasileira de superação e resultados.

O Gosto da Amazônia é uma iniciativa de um Coletivo de organizações no Estado do Amazonas que assumiu o desafio de formar arranjos comerciais que buscam agregar valor à cadeia produtiva do Pirarucu, impulsionando o desenvolvimento socioambiental da região,compensando os custos ambientais com a realização do manejo e a conservação ambiental com a garantia de preço justo.

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A ASPROC tem atuado em uma dimensão territorial e inclusiva, passando a comercializar o pirarucu de outras áreas de manejo e associações comunitárias e indígenas, pagando preços mais justos e buscando novos mercados, com o objetivo de aumentar a renda e a qualidade de vida dos pescadores e manejadores. Exemplos de outras áreas parceiras da ASPROC são: as Terras Indígenas Deni e Paumari, as comunidades do Acordo de pesca de Carauari, a RDS Mamirauá (região de Jutaí), a RESEX do Baixo Juruá, a REXEX Rio Unini, a RESEX Auatí-Paraná e a RESEX do Médio Purus.

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