Projeto transforma escamas de pirarucu em biojoias

Escama do pirarucu é insumo para artesanato | Foto: Lívia Cruz

Texto: Fabíola Abess | ASPROC – Publicado em: 30.09.2025

Iniciativa aposta na economia circular e na sociobiodiversidade como caminho para o empoderamento feminino e a geração de renda

Com o objetivo de fortalecer o protagonismo feminino e a bioeconomia na Amazônia, o projeto Rio Sustentável, Caminhos da Cidadania e Inclusão oferece oficinas de artesanato com escamas de pirarucu, incentivando mulheres a se formarem como artesãs a partir de um recurso natural antes descartado.

As escamas do pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, possuem características únicas como brilho, rigidez e tamanho, que as tornam ideais para a criação de biojoias e peças decorativas. Ao transformar esse resíduo em arte, o projeto estimula práticas sustentáveis e promove a geração de renda em comunidades tradicionais.

Trabalho manual transforma a escama, antes descartada, em acessórios e objetos de decoração. Foto: Lívia Cruz

A sabedoria tradicional há muito já reutiliza a escama do pirarucu como ferramenta, o artefato depois de seco pode ser aproveitado como lixa artesanal; comunidades tradicionais costumam usar para lixar madeira ou objetos de cerâmica, substituir lixas industriais em locais de difícil acesso a materiais, lixa de unha, na produção de artesanato como brincos, colares e lustres de teto.

A oficina vai além da técnica artesanal: resgata autoestima, amplia oportunidades e conecta saberes locais com novos mercados e formas de expressão. Ao participar do processo criativo, muitas mulheres descobrem talentos, vislumbram possibilidades de empreendedorismo e assumem um novo papel dentro da economia local.

Participantes da oficina de biojóias realizada na comunidade Xibauázinho. Foto: Lívia Cruz

Nos dias 19, 20 e 21 de junho, cerca de 50 mulheres participaram de uma oficina de produção de biojoias na Comunidade do Xibauázinho, localizada no território do Médio Juruá, no município de Carauari, Amazonas. A atividade integra o projeto Floresta+ Amazônia, executado pela Associação dos Produtores Rurais de Carauari (ASPROC) em parceria com a Associação das Mulheres Agroextrativistas do Médio Juruá (ASMAMJ).

As organizações seguem fortalecendo as cadeias da sociobiodiversidade pelas mãos de quem sempre cuidou da floresta: as mulheres. É por meio delas que saberes são preservados, a juventude se insere e o futuro se constrói com dignidade e oportunidade. 

Além das escamas, cada aspirante à artesã recebeu um kit para começar uma produção, com engates, entremeios, cordões e peças para dar acabamento em brincos, colares e luminárias.

A origem do insumo

As escamas utilizadas na oficina de biojoias Beleza Sustentável: Mulheres transformando escamas em arte no Médio Juruá são provenientes do pescado da marca coletiva Gosto da Amazônia, resultado do manejo sustentável de pirarucu coordenado pela ASPROC em lagos do território do Médio Juruá e de outras dez áreas de manejo na Amazônia. A expectativa é de que uma nova remessa do insumo chegue em breve, com o início da temporada de pesca do pirarucu nas comunidades envolvidas no arranjo produtivo a partir deste mês de agosto.

Esse trabalho também recebe insumos de uma das iniciativas apoiada pelo Sustenta.bio, aliança pelo fortalecimento das economias da sociobiodiversidade em áreas protegidas, programa criado pelo ICMBio e pelo Fundo Vale para estimular o desenvolvimento socioeconômico de povos tradicionais e comunidades amazônicas que atuam em cadeias como a da castanha-do-brasil, açaí, pirarucu, babaçu, óleos vegetais e madeira de manejo sustentável. Até 2027, o Sustenta.Bio deverá investir cerca de R$ 24 milhões em 14 áreas protegidas, que juntas somam mais de 10 milhões de hectares de floresta amazônica nos estados do Amazonas e Pará.

No caso do pirarucu, o apoio do Sustenta.Bio fortalece o arranjo produtivo coordenado pela ASPROC, reconhecido nacional e internacionalmente como exemplo de manejo sustentável de recursos pesqueiros. A iniciativa contribui com melhorias em infraestrutura, logística, governança e abertura de mercados, ampliando as oportunidades de geração de renda a partir da sociobiodiversidade. Dessa forma, o manejo do pirarucu, que já garante alimento e renda para centenas de famílias extrativistas, conecta-se a um movimento mais amplo de valorização da bioeconomia amazônica, transformando também resíduos como escamas em arte e beleza.

Colar e brincos confeccionados durante os três dias de oficina
Brinco confeccionado a partir das escamas | Fotos: Lívia Cruz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Protagonismo feminino

Entre as 50 mulheres que participaram da oficina realizada na comunidade do Xibauá, no Médio Juruá, está Vitória de Lima Medeiros, moradora do Xibauazinho. Em sua primeira experiência com o artesanato, ela relata como a atividade despertou sua criatividade e marcou sua trajetória de aprendizado e descoberta:

“Eu nunca tinha trabalhado com artesanato antes. Essa oficina de biojoia foi a minha primeira experiência — tudo era novidade pra mim. Mas, graças a Deus, nossa professora é muito competente, e isso fez toda a diferença. Consegui aprender bastante e tive uma vivência muito boa com ela e com as outras participantes, que também estavam encantadas. Trabalhar com artesanato é algo que desperta a nossa imaginação, nosso potencial criativo. Achei tudo muito bonito e fiquei muito feliz por ter participado. Foi uma experiência única, que vou levar comigo pra vida toda”, conta Vitória de Lima Medeiros, moradora do Chibauazinho.

Vitória ainda não iniciou as vendas, mas já visualiza a oportunidade de empreender com apoio da própria comunidade: 

“Ainda não comecei a vender minhas joias, mas pretendo. Só estou esperando conseguir mais escamas. Assim que tiver, vou produzir novas peças, porque várias meninas demonstraram interesse — algumas até já disseram que querem comprar. Então, assim que eu conseguir as escamas, vou voltar a fazer”, afirma.

“A cada peça criada, elas redescobrem sua força, sua história e a beleza que têm nas mãos. Mais do que ensinar uma técnica, é sobre reacender o orgulho de ser mulher amazônida e ver valor onde antes havia descarte”, afirma a artesã e formadora Sereia da Penha, referência em biojoias com escamas na região e formadora da oficina.

O projeto também reforça a importância da economia circular e da sociobiodiversidade como eixos estruturantes para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, mostrando que é possível aliar conservação ambiental, inovação e inclusão produtiva com a formação e a participação das comunidades.